quarta-feira, 23 de junho de 2010

A Casa



04/05/10

A Casa

Hoje tive um sonho. Um sonho estranho.

Sonhei que da porta da cozinha de minha casa, gritava para a Bia, que estava na laje de minha vizinha. Não a do lado, a outra. Entre a gente um enorme quintal.

De lá ela correu até a vizinha da frente para se proteger. Eu estava enfurecida. Ela havia repetido de ano, tão cedo, logo no primeiro trimestre. Sim, no primeiro trimestre já tinha a notícia de repetência.

Muito brava obriguei vir até mim e comecei a lhe bater com havaianas, as legítimas.

Mas a surra saia fofa, parecia não machucar, embora ela chorasse sem fim, com dor. Acho que mais dor pelo fato, ou ato, não pela carne machucada.

Acordei.

Não foi estranho ter sonhado com a repetência, muito menos com a surra.

Estranhei foi ter sonhado mais uma vez com minha casa. Casa que a tanto tempo já não é mais minha, como nunca foi, afinal, o tempo que passamos lá foi mediante o pagamento do tão sofrido aluguel.

Toda vez que sonho estar em casa, é essa tal casa.

Casa que eu morei do meu nascimento até meus 18 anos.

Casa onde a Bia não nasceu, não viveu, mas que em meus sonhos ainda é meu lar.

Era uma casinha bem simples, poucos cômodos. Um quarto só. Mas tinha tanto encanto, embora não desse valor.

Uma beliche ao lado da cama de meus pais, substituiu o berço bicama. Quantas noites dormidas no chão entre o berço e minha mãe.

Outras na cama de casal, ao lado de minha mãezinha, nas noites em que meu pai estava trabalhando na fábrica.

Tudo apertadinho.

Um guarda roupa para todas roupas, poucas, mas todas. Uma gaveta pra você, uma pra mim. Uma prateleira pra você, outra pra mim. Cabides para casaco do papai, e vestidos da mamãe. Uma banqueta de sapatos, não muitos, os necessários. Uma penteadeira com espelho grande, que caiba nós, os quatro.

Na sala se foi o tapete laranja, pra chegar o azul. E que azul! Comer na sala? Nem pensar, uma migalha era como uma estrela no céu! Reluzente. E varrer aquilo era um saco.

A estante pequena foi substituída por uma maior, embora a sala fosse tão pequenina. Mas as tranqueiras iam aumentando, a gente crescendo. Cadernos, livros, a Barsa, o aquário, o telefone, mais livros, quantos livros. Livros de receitas, literatura, revistas, e a Barsa.

Álbuns de fotos.

Vinil, nossa vitrolinha laranja. Tudo era muito colorido.

Nossa cozinha também tinha muita cor. Azuleijos rosas, geladeira e fogão vermelho. Armários e cadeiras vermelhas também. Tudo vivo, quente.

Com o tempo tudo ficou bege. O armário com portas de madeira, azuleijos bege, geladeira bege, fogão bege.

A nossa escrivaninha, companheira de tantas tabuadas copiadas foi-se embora. Era pesada, bonita, madeira maciça, coisa linda de dar gosto. Mas não tinha espaço pra ela. O fogão ficou maior, e a pia também. Adeus querida!

Apesar de pequenina, nossa casinha tinha um charme especial.

Em frente a porta da cozinha, o corredor estreito era invadido pelo pé de pitanga da vizinha, sempre carregado.

Sentada ali, encostada no muro, passava horas e horas, comendo pitangas, hora docinhas, azedinhas de azedar o pé do ouvido. Mas era bom, muito bom!

Quando sobrava muito fazia suco, ou geladinho. Mas de pitanga a gente não vendia. É, porque teve uma época que a gente fazia geladinho pra vender. Coco branco, coco queimado, Morango, Chocolate, Uva, Maracujá, Limão, Tangerina, ... eram tantos sabores, tantas cores.

A graninha não servia pra nada, umas figurinhas aqui, um doce ali, e ingredientes pra fazer mais. Era tudo diversão.

Foi nessa casinha que aprendi a andar de bicicleta. É, porque na rua não dava, a mãe não deixava. Apesar de tranquila, era carro de um lado e de outro, melhor não arriscar. O que papai iria falar?

Depois de ir e voltar entre fundos e garagem, passando pelo corredor estreito, o desafio era arriscar na calçada quebrada. Quantos tombos.

Joelho sempre com casquinhas, que eu adorava cutucar. Cobertor enroscando no cotovelo machucado. Coisas que perdem todo valor quando a gente cresce.

E volta e meia me pego pensando: Porque essa casinha, tão simples, tão pequenina e muitas vezes, nem sempre querida (já que meu sonho e sonho da minha irmã também, era ter nosso quartinho) não some de minha mente? Sempre está presente como MINHA casa. A casa em qualquer tempo, sendo meu sonho de criança, adolescente ou adulta.

Lembro que quando mudamos foi uma alegria enorme. Era o sonho prestes a se realizar.

Continuaríamos a dormir em beliche, mas teríamos nosso canto pra bagunçar, brigar e arrumar. Teríamos uma gaveta a mais pra cada. Uma porta de armário para você, outra pra mim.

A TV velha da sala pra jogar video-game. Sim, porque mesmo com 18 anos eu adorava video-game, e adoro até hoje, com 33.

Nossa sala era tão grande, que foi preciso um aparador velho, não sei bem de onde meu pai tirou aquilo, de certo de algum lixo ou caçamba. E uma mesa de jantar, para ocupar todo aquele imenso espaço.

O tapete azul foi aposentado, a sala toda era cheia de carpete, agora verde!

A janela, nossa, que janela. Enorme. Outra cortina.

Dois banheiros. Que luxo.

Um porão. Meu pai delirou. Quanto espaço pra ferramentas, coisas velhas, lixos queridos. E um quintal. Quintal pequeno, mas suficiente para o churrasquinho de domingo.

Garagem para dois carros. Afinal, eu já tinha conseguido comprar o meu, financiado, mas meu. Já tinha um emprego bacana, feliz, numa agência de viagens cheia de pessoas bacanas.

Casa nova, grande, carro, emprego bom, pessoas legais, amigos leais, gravidez, namorado ciumento, briguento, rabugento, choro de criança, briga com pai, choro, choro meu, de criança, fralda, leite, mais leite, leite caro, teta seca, paga carro, empresta pro leite pai? Meu pai, não o da criança.

A paz ficou atrás, na casinha simples, pequenina, de um quarto só.

É pra lá que meu sonho vai, quando está dormindo. É lá sempre que tudo acontece.

É lá onde passei mais tempo com mãezinha, lá que fui ninada, beijada, lá que apanhei por causa de peraltices, por fazer birra no mercado por causa de polenguinho, e hoje nem dou bola. Lá que chorei, lá onde papai noel deixava os presentes debaixo do buraco do forro, que ficava no banheiro, já que a gente não tinha chaminé.

Lá que meu pai perdeu o emprego e ficamos meses comendo ovo frito, com arroz e feijão. Bendito seja. Nunca ficamos doentes, gravemente doente, não. Só uma dorzinha de garganta, de ouvido. E viva o velho arroz com feijão!

Tudo pouco, mas suficiente.

Feliz.

Lá aprendi a falar, andar, a cuidar da cachorra (sempre foram fêmeas, 3 Laikas e uma Cindy), a comer fruta no pé, a brigar, trabalhar, amar!

Foi na casa simples, pequenina, de um quarto só que aprendi a ser gente, ter meus medos, a me arrepender, me orgulhar, a lutar...

Foi lá que tive meu primeiro pesadelo...

Lá, na casa simples, pequenina, de um quarto só, comecei à sonhar!

E como sonho!

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